Um diario, tentando expressar sensacoes, pensamentos. Sentimentos tentando ser traduzidos. Textos, vida, diário, poesia. Um pouco de mim.

É tão complicado o sistema educacional aqui em Angola. Às vezes me dá a impressão que irá demorar por volta de 100 anos para podermos ver uma mudança significante no nível da educação no país.
Até 1950 a educação era restrita para as áreas urbanas de Angola e os africanos tinham acesso a ela através das Igrejas Católica e Protestante.
O que já era ruim tornou-se ainda pior após a Independência em 1975. Os professores portugueses acabam deixando Angola para retornarem a Portugal. Além disso, inicia-se a guerra civil com o partido do poder MPLA e o partido da oposição UNITA. Essa guerra acarreta a destruição de escolas e limitação de materiais escolares. O sistema educacional estava um caos com a taxa de analfabetismo girando em torno de 85-90%.
Em 1976 o governo lança uma campanha de alfabetização com o foco voltado principalmente para as áreas rurais e convoca todas as pessoas que são alfabetizadas para serem os professores.
O governo prioriza os ensinos primário e secundário. Nessa época o país passa a contar com 25.000 professores primários, mas apenas 2.000 eram minimamente qualificados. No secundário o número de professores era de aproximadamente 600.
O governo lança uma campanha de educação básica gratuita e compulsória para todas as crianças entre 7 e 15 anos.
Entre Novembro de 1976 e Novembro de 1977, cento e duas mil pessoas foram alfabetizadas e em 1980 esse número subiu para um milhão. Por volta de 1985 a taxa de alfabetização girava em torno de 59%.
Além disso, através de uma cooperação com Cuba e União Soviética (países que apoiavam o governo do MPLA) o governo angolano passa a mandar para esses países alguns estudantes. Em 1987 por volta de 4.000 estudantes e 27 professores foram a Cuba e em 1988, 1.800 foram mandados para a União Soviética.
A UNITA continua atacando escolas e professores o que acaba impedindo a construção de novas escolas e impede também a formulação de um novo sistema educacional.
Em 1988 o governo gasta muito mais em artefactos militares do que na educação.
Para retratar um pouco o que significava esses ataques da UNITA as escolas, existe aqui a história que aconteceu com uma das EPFs, a que está sedeada em Caxito, na província do Bengo, a 60 quilômetros a norte de Luanda. Essa EPF é no mesmo espaço aonde existe também o projeto “Cidadela das Crianças, voltado para crianças órfãs ou perdidas dos pais por causa da guerra.
A UNITA entra nessa escola, rapta todas as crianças da Cidadela, os estudantes da EPF conseguem escapar e acaba matando na frente de todos um dos professores. Falam para os voluntários (brancos) que estavam também trabalhando lá que eles deveriam ir embora que essa guerra não era deles.
O que eles iriam fazer com as crianças? Eles serviriam de escudos, ou seja, seriam os primeiros “homens” numa frente de batalha, assim o outro exército descarrega as armas nessa primeira fila, e os soldados podem atacar mais facilmente. As meninas acabam virando as “esposas”. Além disso, sofriam maus-tratos e humilhações para servirem de exemplos a outras crianças. Atentemos para o detalha que não era apenas a UNITA que usava essa tática, o MPLA agia da mesma maneira, pois nos lugares onde a UNITA dominava também existiam escolas, construidas e lideradas pela UNITA, então o MPLA usava das mesmas táticas.
Felizmente, a ADPP (ONG a qual esses projetos estão ligados) fez barulho nas rádios e no governo e essas crianças foram recuperadas uma semana depois. Estavam já no norte do país, fizeram o caminho a pé pelo meio da mata.
Hoje a taxa de alfabetização é de 66.8%, sendo que 82,1% corresponde aos homens e apenas 53,8% as mulheres. E a grande preocupação ainda é a educação. O nível dos estudantes é baixíssimo, aqui na EPF eles correspondem a estudantes que estariam no secundário. Muitos tem erros básicos de português, não conseguem fazer uma conta simples de matemática. E serão professores primários dentro em breve.
Mas, todos me dizem, e eu vou tentar comprovar, que aqui na EPF o nível do estudo e o nível que os estudantes adquirem é muito melhor do que nas escolas normais. Além disso, não existe aqui os “favores” a que os estudantes são submetidos para conseguirem passar nos exames. Esses favores são dinheiro e sexo maioritariamente.
Mas como achar pessoas minimamente qualificadas se as dificuldades de ensino ainda tem raízes muito fortes nesse passado tão sofrido e tão recente? É preciso lutar com o que se tem e tentar fazer com que os estudantes vejam a necessidade de um fortalecimento no seu próprio ensino para que se pare esse ciclo vicioso.
Em certas ocasiões penso que nada que eu diga ou faça ajudará a mudar nada. Desânimo e falta de motivação. As pessoas aqui parecem não ver essa realidade, pois na verdade é a única que conhecem, o que a torna normal. E também eles sempre me lembram:
“- Gabriela, aqui não é o Brasil, aqui é Angola!”. Claro, tento argumentar a importância que eles terão no futuro do país, que o papel que exercerão será de fundamental importância para o destino do país. Se eles me ouvem, me entendem, não sei.